Olho da Rua


Quinta-feira, Julho 29, 2004

Vinha andando e me apropriando dos diálogos alheios nesse fim de tarde morno - mais pra frio, já dá até pra sentir o hálito da noite. Vinha roubando frases da rua. Do encontro de um cara com uma menina, na frente de uma academia, eu ouço: "Tô tomando aminoácidos". E eu sigo. Adiante um homem de barba pergunta para o outro - magro e preocupado: "E a missa de corpo presente, está incluída no velório ?". Paro e olho para o carro em frente aos dois. Tem um caixão dentro dele. Agora, com passos mais urgentes, penso. Lembro da morte de minha mãe, numa pequena clínica perto daqui - e, sem querer, estou caminhando em direção a ela. Na verdade, sai de casa pra ir no banco, depois à loja de cd, depois à internet, depois comprar pão. Mas, graças às lembranças trazidas por esses excertos da vida, pude desligar - pelo menos por alguns minutos - o botão automático do cotidiano.



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Livre comércio.



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Pensando na rua.



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Terça-feira, Julho 27, 2004



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Segunda-feira, Julho 26, 2004



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Dias de sol.



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Sábado, Julho 24, 2004

Dias de chuva.



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Sexta-feira, Julho 23, 2004

É a humanidade quem declara: este lugar é intocável, precisa ser preservado para todos. É a humanidade quem reconhece: este lugar tem história, tem cultura, precisa fazer parte da história e da cultura de todos. Por fim, é a humanidade quem declara com pompa, circunstância e letra maiúscula: estes são Patrimônios da Humanidade. (extraído do site do Ministério do Turismo sobre as cidades, como Salvador, que são tombadas pela UNESCO)



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"O projeto Recuperação do Centro Histórico de Salvador é o maior programa do gênero realizado no País. Até meados de 1996, foram investidos a fundo perdido pelo estado da Bahia cerca de US$ 24 milhões, fora os financiamentos concedidos a comerciantes para se instalarem no bairro. Com esse recurso foram recuperados 334 casarões e reconstruídas nove ruínas. Mas essa ação implicou, também, em elevado custo social. Mais de 500 moradores tiveram de abandonar suas casas e os novos comerciantes queixam-se da sazonalidade do turismo." (extraído do site do Ministério das Relações Exteriores)



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Quarta-feira, Julho 21, 2004

Série "Máquinas inúteis" - ou "Oficina de diabos".



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Terça-feira, Julho 20, 2004



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Domingo, Julho 18, 2004

Após dez horas de trabalho - vendo o dia amanhecer, sem dormir -, terminei a instalação para a Bienal do Recôncavo. Depois, ainda tive que enfrentar quatro horas de viagem - fui e voltei no mesmo ônibus - até São Félix, para entregar o material. Tortura asiática: quatro horas morrendo de sono e segurando duas lâmpadas fluorescentes com todo o cuidado, num banco apertado sobre uma estrada esburacada, pra não deixar quebrar minha noite perdida.



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Quinta-feira, Julho 15, 2004

Tá ficando banal.



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Quarta-feira, Julho 14, 2004

Fios elétricos me lembram partituras musicais; já os pássaros, me remetem a Charlie Parker. Mi, sol, si, re, fá - ou, como diria meu professor, "meu sol se refaz". Tentei assobiar essa melodia mas faltavam duas linhas.



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Segunda-feira, Julho 12, 2004
Sem tempo pra me coçar e ainda tenho que finalizar uma instalação para a Bienal do Recôncavo até quinta-feira, dia 15. Passei três anos planejando esse trabalho e agora - devido ao meu desorganizado cotidiano - tenho apenas quatro dias para concluí-lo. Desejo-me sorte.

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Quinta-feira, Julho 08, 2004
00110

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Quarta-feira, Julho 07, 2004
Prêmio TIM: Dona Edith do Prato - tia de Caetano - revelação ?!?!? Rosinha de Valença morreu mês passado, após 12 anos em coma, sem nunca ter custado um centavo à declaração de pessoa jurídica de alguma multi-nacional.

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Dia longo. O sol parecia não querer apagar. Açoitou-me seus raios até quase às seis. Logo hoje que começo a contar as horas de seu retorno - e fazem quase quinze horas que você partiu. Fiquei a vagar pelas ruas. Se tivesse tinta, cuspiria meus pensamentos nas paredes como faz Banksy - não tenho nem um lápis com a ponta quebrada. Não tenho força pra te trazer de volta. Não tenho força pra chegar até aí. Hoje não me atirei de prédios altos. Ao contrário, me vi saindo pelas suas garagens em carros reluzentes após refletir-me, virtualmente, nos espelhos dos elevadores sociais. Acho desnescessário você estar aí. Afinal, assistiremos à tudo domingo, depois do Fantástico.

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Segunda-feira, Julho 05, 2004

Um homem morto numa calçada. Um homem engraçado em outra. Tragédia e comédia de um domingo.



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Sábado, Julho 03, 2004
Sabe como é andar sem ter pra onde ir ? Voltar pra lugar algum ? Pois é, caminho há horas sem ter onde parar. Faz frio. Estou só. Fito os prédios. Devagarinho, de baixo pra cima - prefiro os maiores. Páro meu olhar lá no alto - por entre as antenas - e pulo. Um salto vertiginoso a cada esquina. E são muitos. Será que os arquitetos pensam nessa possibilidade quando projetam seus arremessadores de almas ?

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Quando o mundo cai da sua mão e lhe falta paciência para colar os mil pedaços. Quando comete um erro - ou milhares, como os pedaços espalhados pelo chão - e não encontra um botão pra desligar a tristeza. Quando deseja um coração de plástico, tão artificial quanto o seu sorriso, pra não sentir a dor. "De profundis clamavi ad te, Domine". Esse quando é hoje, esses erros são meus, e o tempo - a tênue cortina onde Deus se esconde - não volta atrás jamais.



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2 de Julho



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Sexta-feira, Julho 02, 2004

Hoje é comemorado o dia da Independência da Bahia - o nosso 7 de Setembro antecipado. Uma micareta cívica com um grande desfile de bandas marciais, militares, baianas-de-acarajé e índios - o da foto aí debaixo é da tribo dos tupinambás presente no evento. Graças a Deus eles esqueceram o canibalismo; senão, seria um banquete indigesto o grupo de políticos gorduchos que marchavam na frente deles.



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Quinta-feira, Julho 01, 2004

Seguidores da "doutrina espiritualista cristã" Vale do Amanhecer, em SimõesFilho/Ba, durante ritual.



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Voltei com mais 10 Mb na bagagem.



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